segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

TAMBOR DE MINA

Tambor de Mina é a denominação mais difundida das religiões Afro-brasileiras no Maranhão e na Amazônia. A palavra tambor deriva da importância do instrumento nos rituais de culto. Mina deriva de negro da Costa da Mina, denominação dada aos escravos procedentes da “costa situada a leste do Castelo de São Jorge de Mina” (Verger, 1987: 12) , no atual República do Gana, trazidos da região das hoje Repúblicas do Togo, Benin e da Nigéria, que eram conhecidos principalmente como negros mina-jejes e mina-nagôs.



Acredita-se que a primeira tenha sido fundada por uma rainha do antigo reino do Dahomé, vendida como escrava após o falecimento do Rei Agonglô (1797), ou por pessoa por ela iniciada (VERGER, P., 1990). Fala-se que a Casa de Nagô foi aberta por outro grupo, com a colaboração da primeira, razão pela qual é muito ligada a ela. Fala-se ainda na Casa das Minas da existência no passado de um terreiro Cambinda muito ligado à casa Jeje em Codó, interior do Estado



(2) Sobre a Casa das Minas existem dois livros muito importantes e conhecidos: o de NUNES PEREIRA (1ª edição de 1947) e o de Sergio FERRETTI (1ª edição de 1985). Não existe ainda nenhum trabalho exaustivo sobre a Casa de Nagô, embora muitos pesquisadores tenham dedicado a ela várias páginas em suas obras. Sobre Codó existe uma tese de pós-graduação defendida em 1945, nos Estados Unidos, por COSTA EDUARDO (1954), não traduzida para o português. Existe uma literatura razoável sobre a Casa Fanti-Ashanti (de pesquisador e do pai-de-santo), aberta em 1958 e introdutora do Candomblé no Maranhão (BARRETTO, 1977; FERREIRA, 1984; 1987; FERRETTI, M, 1991; 1993). Merece ainda destaque um livro de Maria do Rosário SANTOS (1989) que trata também do Terreiro da Turquia, Terreiro de Iemanjá e Terreiro Fé em Deus.



O tambor de mina se caracteriza por ser religião iniciática e de transe ou possessão. No tambor de mina mais tradicional a iniciação é demorada, não havendo cerimônias públicas de saída, sendo realizada com grande discrição no recinto dos terreiros e poucas pessoas recebem os graus mais elevados ou a iniciação completa.



No Tambor de Mina cerca de noventa por cento dos participantes do culto são do sexo feminino e por isso, alguns falam num matriarcado nesta religião.



Os homens desempenham principalmente a função de tocadores de tambores ou abatazeiros e também se encarregam de certas atividades do culto, como matança de animais de 4 patas e do transporte de certas obrigações para o local em que devem ser depositados.



Algumas casas são dirigidas por homens e possuem maior presença de homens, que podem ser encontrados inclusive na roda de dançantes.



Existem dois modelos principais de tambor de mina no Maranhão: mina jeje e mina nagô. O primeiro parece ser o mais antigo e se estabeleceu em torno da Casa grande das Minas Jeje (Querebentan de Zomadônu), o terreiro mais antigo, que deve ter sido fundado em São Luís na década de 1840.



O outro, que lhe é quase contemporâneo e que também se continua até hoje é o da Casa de Nagô, localizada no mesmo bairro (São Pantaleão) a uma quadra de distância.



A Casa das Minas é única, não possui casas que lhe sejam filiadas, daí porque nenhuma outra siga completamente seu estilo. Nesta casa os cânticos são em língua jeje (Ewê-Fon) e só se recebem divindades denominadas de voduns, mas apesar dela não ter casas filiadas, o modelo do culto do Tambor de Mina é grandemente influenciado pela Casa das Minas.



Nos terreiros de tambor de mina é comum a realização de festas e folguedos da cultura popular maranhense que as vezes são solicitadas por entidades espirituais que gostam delas, como a do Divino Espírito Santo, o Bumba-Meu-Boi, o Tambor de Crioula e outras. É comum também outros grupos que organizam tais atividades irem dançar nos terreiros de mina para homenagear o dono da casa, as vodunsis e para pedir proteção às entidades espirituais para suas brincadeiras



Vodunsi – a palavra significa esposa de vodun ou aquela que o Vodun possui.

Vodun = Divindade de origem ewe/fon

Si = esposa, mulher, femea

Esta palavra é usada para as pessoas iniciadas em rito Jeje após 1 ano da iniciação.



O tambor de crioula é uma dança de roda realizada ao som de tambores feitos de troncos. Trata-se de um folguedo característico da cultura negra do Maranhão. É associado à devoção popular a São Benedito.



São Luís possui duas casas religiosas fundadas por africanos provavelmente na década de 1840, que se continuam há mais de 160 anos e estão entre as mais antigas casas de culto afro do Brasil, a Casa das Minas e a Casa de Nagô. Parece que a Casa das Minas jeje é a mais antiga, porém é uma só, não havendo outras que se assemelhem a ela, que influência o modelo mina-nagô do tambor de mina. O modelo da Casa de Nagô foi o que mais se difundiu no Maranhão e na Amazônia, sendo porém muito diferente do modelo do candomblé da Bahia.



No modelo nagô do tambor de mina são cultuados orixás como Xangô, Iemanjá, Ogum, Nana, voduns como Badé, Averequete, Boça, Ewá, Xapanã, entidades gentis ou fidalgos como D.Luís, D.João, D. Sebastião, D. Miguel, D.Pedro e entidades caboclas ou da linha da mata, como João de Una, João do Leme, João da Mata, Tabajara, Mariana, Bandeira, Pedro Estrela e outros. No Maranhão a Umbanda também está muito desenvolvida sendo largamente influenciada pelo tambor de mina e se diz que é uma umbanda cruzada com mina.



Voduns

No estado de transe no tambor de mina são recebidos voduns e outras entidades. Quase todos os voduns da mina maranhense são cultuados na Casa das Minas, mas há alguns que são cultuados em outras casas e cuja classificação é complexa.



Podemos indicar alguns que são conhecidos como cambindas, como entre outros:

Légua Buji Buá, Navezuarina, Xadatã, Bossu Jará, Bossu Von Dereji, Bossu Fama. – da linha de Codó

Há também os gentis ou fidalgos que são entidades nobres com nomes portugueses, considerados voduns. Os outros voduns conhecidos no Maranhão são os voduns jejes cultuados na Casa das Minas.



Na Casa das Minas, diferentemente das outras casas de tambor de mina, não baixam caboclos, só voduns jejes.

Na casa são conhecidos e cultuados mais de cinqüenta voduns e de cerca de 15 tobossis ou entidades femininas infantis.



Os voduns se agrupam em famílias, sendo 3 principais e 2 secundárias, que são hóspedes. As principais são: família Real ou de Davice; família de Dambirá ou de Acossi Sakpatá, que cuida das doenças; família de Quevioçô. As outras duas são: a de Savalunu, hospede do dono da casa e a de Aladanu, hóspede de Quevioçô.



Os voduns da família real ou de Davice constituem o grupo mais numeroso. São reis, príncipes e princesas.

Existem duas linhagens na casa, a de Dadarro, o rei mais velho e a de Zomadonu, o dono da casa. Os outros voduns mais conhecidos desta família são: Naedona, esposa de Dadarro e Arronoviçavá, seu irmão. Os filhos de Dadarro são Sepazim, Doçu, Bedigá, Nanin e Apojevó. A princesa Sepazin é casada com Daco-Donu e têm um filho Daco. Os filhos de Doçu são Docupé, Decé e Acueví.



Os voduns da família de Davice não são sincretizados com santos católicos ou com orixás nagôs, apenas Doçu é identificado com o orixá Ogum e com São Jorge.



Os voduns são conhecidos por vários nomes e por apelidos. Doçú é conhecido como Agajá, Huntó, Poveçá e por outros nomes. Os outros voduns desta família são pouco conhecidos e não têm correspondentes em outros terreiros.



Conforme explicação da teologia (UNESCO, 1986), o vodun é um espírito intermediário entre a criatura e o Deus criador, ao qual o homem não pode se dirigir diretamente. Os voduns são entidades africanas e na Casa das Minas são também denominados de encantados e dizem que atendem aos pedidos que Deus permite realizar.



A maioria dos voduns são do sexo masculino mas eles podem ser homem ou mulher, velho, adulto ou jovem e crianças ou tobossi.

Cada vodum possui cânticos próprios, preferências por certos alimentos, colares com contas diferentes, com marcas da família e do vodum. Quando incorporados os voduns não comem, não bebem, não satisfazem necessidades fisiológicas e alguns gostam de fumar cachimbo



No tambor de mina a morte é muito ritualizada. Após a missa de sétimo dia é oferecido um cariru ao morto, que é consumido segundo regras rígidas. É realizado também o tambor de choro ou zeli (quando de corpo presente) ou sirrum (quando de corpo ausente).



ENTIDADES ESPIRITUAIS DO TAMBOR DE MINA

Gentis – designa encantados da nobreza européia, geralmente cristã, associados a orixás e, às vezes também, a santos católicos. Esses encantados são também classificados como nagô-gentil ou como vodum-cambinda.



ENTRE ELES MERECEM DESTAQUE:

Rei Sebastião, associado a Xapanã e a São Sebastião; Rainha Dina, associada a Iansã; Rainha Rosa, associada a Santa Rosa de Lima e a Oxum; Dom Luiz, Rei de França, associado a Xangô e a São Luís (Luiz IX).



No Maranhão, o termo caboclo designa entidades distintas dos voduns africanos e dos gentis, mas, difíceis de serem definidas e caracterizadas. De modo geral os caboclos são:



encantados que tiveram vida terrena mas não podem ser confundidos com espíritos de mortos (eguns), do astral, e alguns deles pertencem a categorias não humanas como os botos e surrupiras;

são associados às águas salgadas, como os turcos; à mata, como a família de Légua-Boji; à água doce, como Corre-Beirada (oriundo da Cura/ Pajelança);



pertencem à encantaria brasileira mas podem ser originários de outros países (França, Turquia);

têm ligação com grupos indígenas mas podem ser nobres que preferiram ficar fora dos castelos;

são recebidos freqüentemente, mas nem sempre na qualidade de “donos da cabeça

são homenageados, geralmente, no final ou no último dia do toque mas podem ser recebidos em rituais onde há voduns



Referências

Pierre Fatumbi Verger – Fluxo e Refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos. São Paulo: Currupio, 1987.

Sergio Ferretti – Querebentã de Zomadonu. Etnografia da Casa das Minas. São Luís: EDUFMA, 1996, (2ª Ed. Revista).

Mundicarmo Ferretti, Desceu na Guma: o caboclo em um terreiro de São Luís – a Casa Fanti-Ashanti. São Luís, EDUFMA, 2000, (2ª Ed. Revista).





Autor: rosasnegras7x@ibest.com.br - Categoria(s): RELIGIÃO

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