quinta-feira, 14 de julho de 2011

ENCANTADOS E ENCANTARIAS NO FOLCLORE BRASILEIRO1

Mundicarmo Ferretti


mundi@prof.elo.com.br

Doutora em Antropologia pela USP; professora colaboradora dos

Programas de Pós-Graduação em Políticas Publicas e em Ciências

Sociais (UFMA); Membro da Comissão Maranhense de Folclore. Área

de pesquisa: Antropologia das populações afro-brasileiras.

Publicações: “Desceu na guma: o caboclo do tambor de mina em um

terreiro de São Luís”; “Encantaria de ´Barba Soeira´. Codó, capital

da magia negra?” e outras.

RESUMO

Analise da relação entre religião afro-brasileira e folclore tomando como referência o tambor de mina e o Bumbameu-

boi do Maranhão. Aponta entre os encantados da mina mais ligados ao Bumba-meu-boi - a manifestação

folclórica mais conhecida do Maranhão –, além dos associados aos santos festejados na temporada junina e ao

folclore do boi (animal), os encantados das famílias do Rei Sebastião e de Légua Boji, o primeiro encantado num

touro negro e o segundo representado como vaqueiro.

Palavras-chave

Religião afro-brasileira; folclore maranhense; Tambor de mina; bumba-meu-boi

Introdução

É muito difícil para um brasileiro pensar numa sociedade sem nenhuma referencia a

seres espirituais, como os nossos tão conhecidos anjos e demônios (que acredita-se que

nunca tiveram matéria e vida terrena e que vivem no céu ou no inferno); santos e almas

benditas ou penadas (que tiveram matéria e vida terrena e que, após a morte continuam

atuando na Terra); encantados (pessoas que viveram na terra e desaparecem

misteriosamente, aparentemente vencendo a morte, e que acredita-se que passaram a viver

em outro plano, como o Rei Sebastião); Mãe d´Água, boto e muitos outros seres da mitologia

brasileira, que se acredita existirem nas águas e nas matas, que acredita-se que nunca

tiveram propriamente existência humana e que sempre viveram em encantarias.

Como nossa pesquisa tem girado principalmente em torno do tambor de mina –

religião afro-brasileira hegemônica na capital maranhense -, vamos direcionar nossa atenção

nesse trabalho para os encantados e encantarias mais conhecidos nos terreiros de São Luís e

para a relação deles com o Bumba-meu-boi - a manifestação folclórica mais conhecida do

Maranhão. Os encantados que são objetos de atenção especial nesse trabalho não são,

portanto classificados como santos, anjos, demônios e nem como espíritos de mortos. São

representados geralmente nos terreiros de São Luís (MA) como:

1) seres invisíveis à maioria das pessoas ou algumas vezes visíveis a certo

numero delas;

2) que habitam as encantarias ou “incantes”, situados “acima da Terra e

abaixo do céu”, geralmente em lugares afastados das populações humanas;

3) que tiveram vida terrena e desapareceram misteriosamente, “sem

morrer”, ou que nunca tiveram matéria;

4) que entram em contato com algumas pessoas em sonhos, fora de lugares

públicos (na solidão do mar, da mata, por exemplo) ou durante a realização

de rituais mediúnicos em salões de curadores e pajé, barracões de mina,

umbanda, terecô (religiões afro-brasileiras) e em outros locais onde são

chamados.

Vários encantados conhecidos no tambor de mina são representados como animais,

1 Apresentado no VI Seminário de Ações Integradas em Folclore. São Paulo, 2008.

2

como a princesa Doralice, encantada numa troirinha (lagartixa) e a princesa Rosalina,

encantada numa cobra. O que é algumas vezes apresentado como uma espécie de prisão,

como aparece na história da princesa do Rio Pimenta, que aguarda ansiosamente por um

moço corajoso que consiga quebrar o seu encanto, cortando ao meio a enorme cobra em que

foi encantada (FERRETTI, M. 2000, p.31). Essa transformação em animais às vezes aparece na

mitologia como provocada por feiticeiros maus ou decorrente da ação de um pai poderoso

que não permite que as filhas tenham relacionamentos amorosos ou que não aceita a

gravidez de uma filha que conseguiu burlar o seu controle. Outras vezes essa metamorfose

em animal aparece como provocada pelo próprio encantado, como estratégia para vencer a

morte ou proteger algum recurso natural ameaçado (como a lagoa onde vive a princesa

Rosalina, encantada na Cobra Grande).(FERRETTI, M., 2002).

Vários encantados recebidos no Maranhão em terreiros de religião afro-brasileira são

conhecidos em diversas manifestações folclóricas (contos, cantos, danças, representações

teatrais, pinturas, esculturas etc.) onde são também considerados seres dotados de

existência real, que podem entrar em contato com os humanos. Alguns deles, como a Mãe

d´Água e o Rei Sebastião, são muito conhecidos. Outros, como o Ferrabrás de Alexandria,

personagem da antiga obra Historia do Imperador Carlos Magno e os doze pares de França,

reproduzida em folhetos de Cordel (BARROS, L. s.d.), nas Cheganças e em outras danças e

representações folclóricas que narram batalhas entre mouros e cristãos, nem sempre são

conhecidos como encantados fora dos terreiros de mina e de outras denominações religiosas

influenciadas por ela.

Encantados e encantarias do Tambor de Mina2

No Maranhão o termo encantado é usado nos terreiros de mina, tanto nos fundados

por africanos quanto nos mais novos e sincréticos, e nos salões de curadores ou pajés.

Refere-se a uma categoria de seres espirituais recebidos em transe mediúnico, que não

podem ser observados diretamente ou que se acredita poderem ser vistos, ouvidos ou

sentidos em sonho, ou em vigília por pessoas dotadas de vidência, mediunidade ou de

percepção extrasensorial, como alguns preferem denominar. São voduns, gentis (nobres)

caboclos e índios que moram em encantarias africanas ou brasileiras e que incorporam em

filhos-de-santo.

Apesar de totalmente invisíveis para a maioria das pessoas, os encantados tomam-se

"visíveis" quando os médiuns em quem incorporam manifestam alterações de consciência e

assumem outra identidade, a de um determinado encantado, o que geralmente ocorre

durante a realização de rituais. Esses encantados apresentam-se geralmente à comunidade

religiosa como alguém que teve vida terrena há muitos anos e desapareceu misteriosamente,

tornando-se invisível, ou como seres que nunca tiveram matéria, mas podem também se

comunicar com as pessoas incorporando em médiuns. Os encantados não são considerados

espíritos de mortos, como os “eguns” do candomblé e os espíritos que se comunicam com as

pessoas em centros espíritas e em seções de mesa branca, nem mesmo quando se acredita

que tiveram vida terrena. Pertencem a outra categoria de seres espirituais3.

Os encantados da mina são freqüentemente comparados aos "anjos de guarda"

entidades muito conhecidas no catolicismo popular. São protetores dos homens dotados de

poderes especiais que estão “abaixo de Deus e dos santos (mártires e outros)”, mas, ao

contrário dos anjos de guarda, podem castigar severamente seus protegidos, como narrado

em casos registrados por nós no livro “Maranhão Encantado: encantaria maranhense e outras

histórias” (FERRETTI, M. 2000, p.97).

2 Retoma texto da autora publicado em Maranhão Encantado: encantaria maranhense e outras

histórias. São Luís: UEMA Editora, 2000, p. 15-16.

3 Nos terreiros de São Luis os orixás e voduns são algumas vezes denominados invisíveis”e pertencentes

a encantarias africanas, mas dificilmente se afirma que tiveram matéria ou vida terrena, embora

alguns deles sejam representados na mitologia como reis (Xangô, Pedro Angassu) ou tenham nomes de

soberanos do antigo reino do Daomé (hoje Benin – África).

3

Afirma-se em São Luís que os encantados nunca levam propriamente as pessoas ao

mal, embora possam levá-las a certos comportamentos desaprovados socialmente, pois,

segundo a mitologia, muitos são alcoólatras, violentos, irreverentes como os da família de

Légua Boji – entidade controvertida que para uns é um caboclo, filho adotivo ou afilhado de

Dom Pedro Angassu (classificado como vodum ou gentil – nobre associado a orixá), para

outros é um vodum cambinda e há quem afirme que ele é o poderoso Légba da cultura

daomeana (jeje), que corresponde ao Exu da cultura ioruba (nagô).

Em alguns terreiros da capital maranhense, as entidades espirituais não africanas ou

caboclas mais antigas são denominadas."vodunsos", como ocorre no Terreiro Fé em Deus, de

Mãe Elzita, onde Caboclo Velho, entidade por ela recebida, também conhecida por

Sapequara, o que atesta a influencia da Casa das Minas - terreiro jeje fundado na primeira

metade do século XIX – em outros terreiros. Mas, de modo geral as entidades da mitologia

indígena brasileiras como o Curupira, ou da mitologia cabocla, como a Mãe d´Água, não são

denominadas "voduns". Afirma-se que, no passado, essas entidades brasileiras não eram

conhecidas em terreiros de mina de São Luís. Eram recebidas por pajés e curadores e só

entraram quando estes, fugindo de perseguições policiais, pois o curandeirismo era e ainda é

crime contra a saúde pública no Código Penal Brasileiro, passaram a abrir terreiros de mina.

Lugares sagrados e encantarias maranhense4

No Maranhão várias localidades são conhecidas como encantarias ou encantes -

moradas de encantados recebidos em transe durante rituais e invocados pela população em

momentos de aflição.

O saudoso pai-de-santo Jorge Itaci associava vários encantados da mina a localidades

de São Luis e de outros municípios maranhenses (OLIVEIRA, 1989). Segundo aquela fonte:

1) Dom Luís, que comanda a ilha de São Luís, tem sua corte encantada na Baia

de São Marco e domina de Ponta d´Areia até a Ilha do Medo;

2) Rei Sebastião cuja encantaria fica na Praia dos Lençóis domina do Boqueirão

ao Itaqui;

3) Dom José Floriano domina o Boqueirão e a “cerca” de Alcântara5;

4) Rei da Bandeira (João da Mata ou Rei da Boa Esperança), encantado na

pedra de Itacolomi;

5) Dom João Soeira (Rei de Minas ou Rei do Juncal), domina a praia do Calhau;

6) Dom Pedro Angassu, comanda as matas do Codó.

Analisando o mapa do estado pode se encontrar no litoral Norte, na direção do Pará,

várias localidades referidas nas letras daquelas músicas como locais de encantarias. Na ilha

de São Luís, o porto do Itaqui, as praias de Olho d´Água, Ponta d´Areia, São José de Ribamar

são apresentadas naquelas musicas como moradas da Princesa Ína, da Rã Preta, da Menina da

Ponta d´Areia e de outros encantados. No meio do mar, entre a ilha de São Luís e Alcântara,

no tão temido Boqueirão – passagem entre duas pedras -, onde o mar é mais agitado,

provocando naufrágios, e onde se acredita que muitas pessoas se encantaram. Existe também

no meio do mar a pedra de Itacolomi, que pertence ao encantado João da Mata, ou Rei da

Bandeira, onde vive a Princesa Doralice, encantada numa troirinha (lagartixa). São também

conhecidos no Maranhão como lugares de encantarias: a Praia dos Lençóis, de Rei Sebastião,

e as pontas de Mangunça e de Caçacueira, onde moram as Mães d´Água de mesmo nome.

Não se deve pensar que para o povo maranhense que conhece encantado, só existe

encantaria no litoral ou na água salgada. Uma das encantarias maranhenses mais conhecidas

é a da mata de Codó, no interior de estado, onde reina Dom Pedro Angasso e Rainha Rosa e

4 Apresentado originalmente na 56 Reunião Anual da SBPC – UFMT 18-23/07/2004; versão preliminar

publicada no Boletim da CMF, nº 40, jun. 2008, p. 3-4.

5 São também citados entre os encantados que dominam a região de Alcântara: Barão de Guaré, das

cercanias de Alcântara até o Boqueirão (ANDRADE, 2002); Dom Manoel; José Raimundo (camaroeiro) e

Menino Louro. Fala-se também bastante em Rei Leão, encantado do Boqueirão, e das ligações das ilhas

do Caranguejo e do Medo com o Rei Sebastião (COSTA, S., 1985).

4

onde Légua Boji Boa comanda uma grande linha de caboclo. Fala-se também que onde tem

mata tem Curupira (ou Surrupira) e vários encantados que assumiram formas de animais:

calangos, lagartixas, jacarés, macacos, borboletas, onça e outros. E, tanto na região

litorânea quanto no interior, existem rios, lagos, poços e nascentes conhecidos como

moradas de Mães d´Água e de encantados que já apareceram a alguém como cobras, peixes,

botos e outros animais.

Os locais de encantaria são descritos pelos médiuns como lugares de muita energia,

de muito poder, de uma força inexplicável ou como lugares de muito mistério, de muita

“mironga”, de muito segredo. Afirma-se que nos principais passam muitas correntes

espirituais. Em vários deles existem encontros de águas (do mar com água doce), de rios e

matas, e em muitos deles existem pedreiras. Os lugares mais isolados, intocados, virgens

concentram mais força. É por isso que se afirma que o turismo e o afluxo de pessoas para

aqueles locais pode ser prejudicial. Fala-se que em Alcântara há uma concentração muito

grande de forças vindas da África, pois recebeu grande número de escravos, e de forças de lá

mesmo.

Ao contrário do que ocorre com os locais ligados à vida ou ao aparições de santos e

almas milagrosas, a aproximação de encantarias só é permitida a poucas pessoas, as que

recebem encantados de lá e foram autorizados por eles. E quem se aproxima de lugares

encantados (nas águas ou nas matas) para fazer uma oferenda ou buscar algo solicitado pelos

guias espirituais (como pedra, areia etc. para assentar um terreiro etc.), costuma sair de lá

sem olhar para trás, pois fala-se que muitos dos que viram encantados ficaram doentes ou

morreram logo depois. Adverte-se também que intromissões, curiosidades e profanações de

encantarias são severamente punidas, pois quem não pertence às suas linhas é rejeitado

pelos donos do lugar. Quem não tem vidência não sabe que às vezes uma duna esconde um

palácio e pode querer pisar ou construir uma casa em cima da encantaria, da casa dos donos

do lugar. Quem vai a um lugar de encantaria é porque tem um pedido de proteção, de saúde,

tem um descarrego, uma firmeza a fazer ou uma promessa a pagar.

As encantarias são apresentadas por pais-de-santo maranhenses como locais de

reabastecimento de forças, que às vezes estão definhando por causa de “demandas” ou que

precisam ser armazenadas, para que se possam enfrentar as dificuldades que surgem durante

o ano. É por isso que procuram fazer ali lavagens de cabeça ou de contas. Explicam que, se

uma área daquelas for cercada ou interditada por alguém, há um grande prejuízo para a

população e grande risco de ocorrerem ali muitas mortes, como ocorreu no porto do Itaqui e

na Base de Lançamento de Alcântara. Depois do funcionamento do porto, como não se podia

mais entrar livremente na área, os médiuns tiveram que arranjar outros locais para fazer

suas obrigações, como deve estar acontecendo em Alcântara. Em São Luís, terreiros que

dependem de força da pedra de Itacolomi fazem sua obrigação em uma gruta existente na

Ilha, que fica na direção daquela pedra...

A relação do Bumba-meu-boi com encantados no Maranhão

Embora o Bumba-boi seja classificado como folguedo profano, sua relação com santos

católicos é bastante conhecida. Em São Luís, São João, São Pedro, São Marçal, e Santo

Antonio, festejados no período junino, são muito ligados ao Boi. Muitos grupos de Boi que

hoje se apresentam nos arraiais e adotaram estrutura de empresa, nasceram de uma

promessa feita por seus fundadores em momento de aflição e todos são batizados, rendem

homenagem a São Pedro na capela desse santo e/ou participam da procissão marítima

organizada no dia 29 de junho. Mas o Boi do Maranhão tem também uma relação muito

estreita com encantados e certo número deles foi organizado para atender a um desejo deles

anunciado em sonho ou em vigília ou para pagar uma promessa feita a um deles, como pode

ser constatado na analise de depoimentos de Humberto, dono do Boi do Maracanã, e Cláudia

Regina, filha e sucessora do Leonardo, fundador do Boi da Liberdade publicados em Memória

de Velhos –volume VII (LIMA, Z., 2008).

No repertório do Boi do Maracanã existe uma toada de autoria de Humberto,

intitulada “Reis da ´Incantaria´” sobre encantados conhecidos no Maranhão que mostra

claramente o lugar ocupado por eles no Bumba-meu-boi:

5

“Reis da ´Incantaria´”

Salve os terreiros;

Que o pai Oxalá;

Turquia, Casa das Minas;

E a Casa de Nagô;

Viva Deus;

Viva as Rainhas;

E os Reis da incantaria;

Reis Badé, rei Verequete;

O rei da Alexandria;

Rei Guajá, Rei Surrupira;

Rei Dom Luís, Rei Dom João;

Rei dos feiticeiros, dos Exus;

E Rei Leão;

Rei Oxossi, Rei Xangô;

Rei Camundá, Xapanã

E Barão, Rei de Guaré;

Proteja o Boi do Maracanã;

Rei da Bandeira, o Rei da Maresia;

Rei de Itabaiana, salve o Rei da Bahia

E os reis que eu não falei em verso;

Falo no meu coração;

Salve Rei dos Índios;

Salve o Rei Sebastião.

Como muitos encantados gostam de Boi vários terreiros maranhenses possuem um

boizinho, às vezes de vara, e organizam uma anualmente uma brincadeira de Boi para eles

com batismo, morte e quebra de mourão, como ocorre na Tenda Santa Terezinha, no

Angelim, para Tombacé, ou pelo menos uma vaquejada, como às vezes ocorre no Terreiro Fé

em Deus, para Surrupirinha.

Entre os encantados mais ligados ao Boi que são recebidos em terreiros maranhenses

podem ser citados:

1) os que têm nomes derivados ou relacionados aos dos santos festejados no

mês de junho: João da Mata, Pedrinho, Antonio Luís;

2) Rei Sebastião, encantado num touro negro na Praia dos Lençóis e outras

entidades ligadas a ele;

3) Légua-Boji, chefe de uma grande família de encantados e apresentado

como “vaqueiro” e muitos outros.

Em nosso trabalho de campo realizado em terreiros da capital maranhense tivemos

oportunidade de observar brincadeiras de Bumba-boi para diversos encantados:

1) Légua-Boji, no Terreiro de Jorge da Fé em Deus;

2) Surrupirinha, na casa de dona Elzita, no Sacavém;

3) Antonio Luís, na casa de dona Clarinda, no bairro de Santo Antonio;

4) Tombasse, na casa de Mariinha, no Angelim;

5) Preto Velho, em dona Neném, na Casa de Nagô;

6) Lealdino, na casa de dona Raimundinha, no João Paulo.

Observamos também em Codó a brincadeira do Boi de Zezinho, no terreiro de Bita do

Barão, e, em Cururupu, tomamos conhecimento da existência do Boi de Caboclo Aracanguira,

organizado por Betinho – curador.

Os Bois de Encantados geralmente não têm uma organização muito complexa, pois

neles os brincantes costumam ser os pais e filhos-de-santo, tocadores e auxiliares dos

terreiros. Mas alguns deles costumam contar com a participação de grupos de Boi

comandados por pessoas amigas ou cujo dono é devoto da entidade a quem pertence o

boizinho e para quem é oferecida a brincadeira, como tivemos oportunidade de observar na

6

Casa de Nagô, na morte do boi de Preto Velho6. Pratica semelhante costuma ocorrer com o

Tambor de Crioula, manifestação folclórica maranhense de grande importância realizada

freqüentemente em terreiros da capital nas festas de São Benedito ou do vodum Averequete,

devoto daquele santo. O Tambor de Crioula é também dançado em terreiros maranhenses

por pessoas em transe nas brincadeiras organizadas pelos terreiros na abertura e no

encerramento de suas festas grandes; em festas realizadas em homenagem a pretos velhos,

como a que ocorre tradicionalmente no Terreiro de Iemanjá no dia 13 de maio, em que se

comemora a abolição da escravidão no Brasil; e em festas de entidades caboclas que gostam

muito daquela brincadeira, como ocorria no passado no terreiro de dona Elzita, no bairro do

Sacavém na festa de São Raimundo, do caboclo Jariodama.

Voltando à relação de encantados de terreiros maranhenses com a brincadeira de

Bumba-meu-boi, vamos encerrar essa nossa intervenção com versos cantados em 2004 na

casa de Mãe Mariinha, no bairro do Angelim, por ocasião da “morte do boi” do encantado

Tombasse, onde essa relação aparece claramente:

“Chegou o Brilho da Bandeira”

Chegou o Brilho da Bandeira

Com todo seu guarnicê (bis).

Dança Tombacé,

Dança João de Una

Dança Preta Velha

E a Cabocla Mariana (bis)

“Benção e Luz”

Vamos reunir o nosso batalhão

Com proteção de Senhor São João (bis)

Só peço a Deus

E a Virgem de Nazaré

Que abençõe e dê luz

Ao batalhão de Tombacé

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Joel Carlos de Sousa. Os Filhos da Lua: poéticas sebastianistas na Ilha dos Lençóis-

MA. Dissertação de Mestrado: Fortaleza: UFCE - PPG em História Social. Nov. 2002.

BARROS, Leandro G. A batalha de Oliveiros com Ferrabrás e a Prisão de Oliveiros. Juazeiro

do Norte: [s.n.]. 1981. Folheto de Cordel.

COSTA, Sebastião de Jesus. Umbanda e cultura. São Luís: SIOGE, 1985.

FERRETTI, Mundicarmo. Maranhão Encantado: encantaria maranhense e outras histórias. São

Luís: UEMA Editora, 2000.

--------. Lugares sagrados e encantarias maranhenses. Boletim da Comissão Maranhense de

Folclore, nº 40, junho 2008, p. 3-4.

LIMA, Zelinda. Memória de Velhos: depoimentos. Memória oral na cultura popular

maranhense. Volume VII. São Luis: CMF/SECMA, 2008.

HIStoria do Imperador Carlos Mágno e os Doze Pares de França. Rio de Janeiro: Livraria

Império, s.d.

OLIVEIRA, Jorge Itaci. Orixás e Voduns nos terreiros de Mina. São Luís: VCR, 1989.

6 Com o falecimento de dona Neném, que recebia o encantado conhecido por Preto Velho, aquela

brincadeira foi encerrada e o boizinho foi doado ao museu do Centro de Cultura popular Domingos

Vieira Filho, após a realização de alguns ritos internos para a sua dessacralização.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Festa de São João esta chegando,esquenta os tambores Maranhão.

A essência da lenda enlaça a sátira, a comédia, a tragédia e o drama, e demonstra sempre o contraste entre a fragilidade do homem e a força bruta de um boi. Esta essência se originou da lenda de Catirina e Pai Francisco,origem nordestina, que sofreu adaptação à realidade amazônica. Dessa forma, reverencia o boi livre e nativo da floresta Amazônica, bem como a alegria, sinergia e força das festas coletivas pindoramas (pindoramas = indígenas - a palavra índio e indígena derivam da falsa impressão dos "descobridores" de terem chegado a Índia, sendo que a terra Brasileira era então nomeada por seus nativos de Pindorama).
A festa do Bumba-meu-Boi surgiu no nordeste do país, mais especificamente no Estado do Piauí, pois a região onde hoje se situa o Piauí começou a ser povoada por vaqueiros que vinham da Bahia em busca de novas pastagens para o gado. Ainda hoje a figura do vaqueiro é marcante e faz parte da cultura piauiense, além de ser uma personagem típica no estado. Mas foi no Estado do Maranhão que o Bumba-meu-Boi foi mais popularizado e exportado para o Estado do Amazonas com o nome de Boi-Bumbá, visitado anualmente por milhares de turistas que vão para conhecer o famoso Festival Folclórico de Parintins, realizado desde 1913.
Ao espalhar-se pelo país, o bumba-meu-boi adquire nomes, ritmos, formas de apresentação, indumentárias, personagens, instrumentos, adereços e temas diferentes. Dessa forma, enquanto no Maranhão, Rio Grande do Norte, Alagoas e Piauí é chamado bumba-meu-boi, no Pará e Amazonas é boi-bumbá ou pavulagem; em Pernambuco é boi-calemba ou bumbá; no Ceará é boi-de-reis, boi-surubim e boi-zumbi; na Bahia é boi-janeiro, boi-estrela-do-mar, dromedário e mulinha-de-ouro; no Paraná, em Santa Catarina, é boi-de-mourão ou boi-de-mamão; em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Cabo Frio e Macaé (em Macaé há o famoso boi do Sadi) é bumba ou folguedo-do-boi; no Espírito Santo é boi-de-reis; no Rio Grande do Sul é bumba, boizinho, ou boi-mamão; em São Paulo é boi-de-jacá e dança-do-boi.





segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

TENDA TABORES DE MINA CASA DE SÃO BENEDITO NA CRUZADA DE XANGO

 FILHOS DE SANTO:
 JÚNIOR DE OGUM
 THIAGO DE OXAGUIAN
 ANA CÉLIA DE YEMANJÁ
 VERONIKA DE IANSÃ
 FATIMA DE OXOSSI
 MARCIA DE OXALUFAN
 NOSSA MÃE DE SANTO COM SUAS FILHAS
 NOSSA MÃE DE SANTO COM SUAS FILHAS



 ANA CELIA
 VERONIKA
FATIMA


AXÉ....

TAMBOR DE MINA

Tambor de Mina é a denominação mais difundida das religiões Afro-brasileiras no Maranhão e na Amazônia. A palavra tambor deriva da importância do instrumento nos rituais de culto. Mina deriva de negro da Costa da Mina, denominação dada aos escravos procedentes da “costa situada a leste do Castelo de São Jorge de Mina” (Verger, 1987: 12) , no atual República do Gana, trazidos da região das hoje Repúblicas do Togo, Benin e da Nigéria, que eram conhecidos principalmente como negros mina-jejes e mina-nagôs.



Acredita-se que a primeira tenha sido fundada por uma rainha do antigo reino do Dahomé, vendida como escrava após o falecimento do Rei Agonglô (1797), ou por pessoa por ela iniciada (VERGER, P., 1990). Fala-se que a Casa de Nagô foi aberta por outro grupo, com a colaboração da primeira, razão pela qual é muito ligada a ela. Fala-se ainda na Casa das Minas da existência no passado de um terreiro Cambinda muito ligado à casa Jeje em Codó, interior do Estado



(2) Sobre a Casa das Minas existem dois livros muito importantes e conhecidos: o de NUNES PEREIRA (1ª edição de 1947) e o de Sergio FERRETTI (1ª edição de 1985). Não existe ainda nenhum trabalho exaustivo sobre a Casa de Nagô, embora muitos pesquisadores tenham dedicado a ela várias páginas em suas obras. Sobre Codó existe uma tese de pós-graduação defendida em 1945, nos Estados Unidos, por COSTA EDUARDO (1954), não traduzida para o português. Existe uma literatura razoável sobre a Casa Fanti-Ashanti (de pesquisador e do pai-de-santo), aberta em 1958 e introdutora do Candomblé no Maranhão (BARRETTO, 1977; FERREIRA, 1984; 1987; FERRETTI, M, 1991; 1993). Merece ainda destaque um livro de Maria do Rosário SANTOS (1989) que trata também do Terreiro da Turquia, Terreiro de Iemanjá e Terreiro Fé em Deus.



O tambor de mina se caracteriza por ser religião iniciática e de transe ou possessão. No tambor de mina mais tradicional a iniciação é demorada, não havendo cerimônias públicas de saída, sendo realizada com grande discrição no recinto dos terreiros e poucas pessoas recebem os graus mais elevados ou a iniciação completa.



No Tambor de Mina cerca de noventa por cento dos participantes do culto são do sexo feminino e por isso, alguns falam num matriarcado nesta religião.



Os homens desempenham principalmente a função de tocadores de tambores ou abatazeiros e também se encarregam de certas atividades do culto, como matança de animais de 4 patas e do transporte de certas obrigações para o local em que devem ser depositados.



Algumas casas são dirigidas por homens e possuem maior presença de homens, que podem ser encontrados inclusive na roda de dançantes.



Existem dois modelos principais de tambor de mina no Maranhão: mina jeje e mina nagô. O primeiro parece ser o mais antigo e se estabeleceu em torno da Casa grande das Minas Jeje (Querebentan de Zomadônu), o terreiro mais antigo, que deve ter sido fundado em São Luís na década de 1840.



O outro, que lhe é quase contemporâneo e que também se continua até hoje é o da Casa de Nagô, localizada no mesmo bairro (São Pantaleão) a uma quadra de distância.



A Casa das Minas é única, não possui casas que lhe sejam filiadas, daí porque nenhuma outra siga completamente seu estilo. Nesta casa os cânticos são em língua jeje (Ewê-Fon) e só se recebem divindades denominadas de voduns, mas apesar dela não ter casas filiadas, o modelo do culto do Tambor de Mina é grandemente influenciado pela Casa das Minas.



Nos terreiros de tambor de mina é comum a realização de festas e folguedos da cultura popular maranhense que as vezes são solicitadas por entidades espirituais que gostam delas, como a do Divino Espírito Santo, o Bumba-Meu-Boi, o Tambor de Crioula e outras. É comum também outros grupos que organizam tais atividades irem dançar nos terreiros de mina para homenagear o dono da casa, as vodunsis e para pedir proteção às entidades espirituais para suas brincadeiras



Vodunsi – a palavra significa esposa de vodun ou aquela que o Vodun possui.

Vodun = Divindade de origem ewe/fon

Si = esposa, mulher, femea

Esta palavra é usada para as pessoas iniciadas em rito Jeje após 1 ano da iniciação.



O tambor de crioula é uma dança de roda realizada ao som de tambores feitos de troncos. Trata-se de um folguedo característico da cultura negra do Maranhão. É associado à devoção popular a São Benedito.



São Luís possui duas casas religiosas fundadas por africanos provavelmente na década de 1840, que se continuam há mais de 160 anos e estão entre as mais antigas casas de culto afro do Brasil, a Casa das Minas e a Casa de Nagô. Parece que a Casa das Minas jeje é a mais antiga, porém é uma só, não havendo outras que se assemelhem a ela, que influência o modelo mina-nagô do tambor de mina. O modelo da Casa de Nagô foi o que mais se difundiu no Maranhão e na Amazônia, sendo porém muito diferente do modelo do candomblé da Bahia.



No modelo nagô do tambor de mina são cultuados orixás como Xangô, Iemanjá, Ogum, Nana, voduns como Badé, Averequete, Boça, Ewá, Xapanã, entidades gentis ou fidalgos como D.Luís, D.João, D. Sebastião, D. Miguel, D.Pedro e entidades caboclas ou da linha da mata, como João de Una, João do Leme, João da Mata, Tabajara, Mariana, Bandeira, Pedro Estrela e outros. No Maranhão a Umbanda também está muito desenvolvida sendo largamente influenciada pelo tambor de mina e se diz que é uma umbanda cruzada com mina.



Voduns

No estado de transe no tambor de mina são recebidos voduns e outras entidades. Quase todos os voduns da mina maranhense são cultuados na Casa das Minas, mas há alguns que são cultuados em outras casas e cuja classificação é complexa.



Podemos indicar alguns que são conhecidos como cambindas, como entre outros:

Légua Buji Buá, Navezuarina, Xadatã, Bossu Jará, Bossu Von Dereji, Bossu Fama. – da linha de Codó

Há também os gentis ou fidalgos que são entidades nobres com nomes portugueses, considerados voduns. Os outros voduns conhecidos no Maranhão são os voduns jejes cultuados na Casa das Minas.



Na Casa das Minas, diferentemente das outras casas de tambor de mina, não baixam caboclos, só voduns jejes.

Na casa são conhecidos e cultuados mais de cinqüenta voduns e de cerca de 15 tobossis ou entidades femininas infantis.



Os voduns se agrupam em famílias, sendo 3 principais e 2 secundárias, que são hóspedes. As principais são: família Real ou de Davice; família de Dambirá ou de Acossi Sakpatá, que cuida das doenças; família de Quevioçô. As outras duas são: a de Savalunu, hospede do dono da casa e a de Aladanu, hóspede de Quevioçô.



Os voduns da família real ou de Davice constituem o grupo mais numeroso. São reis, príncipes e princesas.

Existem duas linhagens na casa, a de Dadarro, o rei mais velho e a de Zomadonu, o dono da casa. Os outros voduns mais conhecidos desta família são: Naedona, esposa de Dadarro e Arronoviçavá, seu irmão. Os filhos de Dadarro são Sepazim, Doçu, Bedigá, Nanin e Apojevó. A princesa Sepazin é casada com Daco-Donu e têm um filho Daco. Os filhos de Doçu são Docupé, Decé e Acueví.



Os voduns da família de Davice não são sincretizados com santos católicos ou com orixás nagôs, apenas Doçu é identificado com o orixá Ogum e com São Jorge.



Os voduns são conhecidos por vários nomes e por apelidos. Doçú é conhecido como Agajá, Huntó, Poveçá e por outros nomes. Os outros voduns desta família são pouco conhecidos e não têm correspondentes em outros terreiros.



Conforme explicação da teologia (UNESCO, 1986), o vodun é um espírito intermediário entre a criatura e o Deus criador, ao qual o homem não pode se dirigir diretamente. Os voduns são entidades africanas e na Casa das Minas são também denominados de encantados e dizem que atendem aos pedidos que Deus permite realizar.



A maioria dos voduns são do sexo masculino mas eles podem ser homem ou mulher, velho, adulto ou jovem e crianças ou tobossi.

Cada vodum possui cânticos próprios, preferências por certos alimentos, colares com contas diferentes, com marcas da família e do vodum. Quando incorporados os voduns não comem, não bebem, não satisfazem necessidades fisiológicas e alguns gostam de fumar cachimbo



No tambor de mina a morte é muito ritualizada. Após a missa de sétimo dia é oferecido um cariru ao morto, que é consumido segundo regras rígidas. É realizado também o tambor de choro ou zeli (quando de corpo presente) ou sirrum (quando de corpo ausente).



ENTIDADES ESPIRITUAIS DO TAMBOR DE MINA

Gentis – designa encantados da nobreza européia, geralmente cristã, associados a orixás e, às vezes também, a santos católicos. Esses encantados são também classificados como nagô-gentil ou como vodum-cambinda.



ENTRE ELES MERECEM DESTAQUE:

Rei Sebastião, associado a Xapanã e a São Sebastião; Rainha Dina, associada a Iansã; Rainha Rosa, associada a Santa Rosa de Lima e a Oxum; Dom Luiz, Rei de França, associado a Xangô e a São Luís (Luiz IX).



No Maranhão, o termo caboclo designa entidades distintas dos voduns africanos e dos gentis, mas, difíceis de serem definidas e caracterizadas. De modo geral os caboclos são:



encantados que tiveram vida terrena mas não podem ser confundidos com espíritos de mortos (eguns), do astral, e alguns deles pertencem a categorias não humanas como os botos e surrupiras;

são associados às águas salgadas, como os turcos; à mata, como a família de Légua-Boji; à água doce, como Corre-Beirada (oriundo da Cura/ Pajelança);



pertencem à encantaria brasileira mas podem ser originários de outros países (França, Turquia);

têm ligação com grupos indígenas mas podem ser nobres que preferiram ficar fora dos castelos;

são recebidos freqüentemente, mas nem sempre na qualidade de “donos da cabeça

são homenageados, geralmente, no final ou no último dia do toque mas podem ser recebidos em rituais onde há voduns



Referências

Pierre Fatumbi Verger – Fluxo e Refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos. São Paulo: Currupio, 1987.

Sergio Ferretti – Querebentã de Zomadonu. Etnografia da Casa das Minas. São Luís: EDUFMA, 1996, (2ª Ed. Revista).

Mundicarmo Ferretti, Desceu na Guma: o caboclo em um terreiro de São Luís – a Casa Fanti-Ashanti. São Luís, EDUFMA, 2000, (2ª Ed. Revista).





Autor: rosasnegras7x@ibest.com.br - Categoria(s): RELIGIÃO